quinta-feira, 17 de maio de 2012

Estados Unidos: uma nação subdesenvolvida

17.05.12 - EUA

Roberto Torres Collazo
Ativista de Porto Rico residente em Massachussets
Adital
Tradução: ADITAL
Talvez muitos se surpreendam com a qualificação "subdesenvolvida” que adotamos nesse texto. Talvez deva-se a que nos acostumamos a qualificar de "subdesenvolvidos” a um grande número de países pobres da América Latina e do Caribe, da África e da Ásia. Os Estados Unidos é um país altamente industrializado e rico; porém, contraditoriamente, apresenta traços muito parecidos aos países pobres em assuntos vitais, como a economia, a saúde, alimentos, emprego e habitação.
O economista chileno, especialista em economia internacional, Manfred Max-Neff, em sua investigação ético-econômica, realizada conjuntamente com o físico B. Smith, em "Economics Unmasked” (2011) [A Economia Desmascarada] recolhe dados que mostram a realidade atual dos EUA.
A realidade é que 50 milhões de estadunidenses necessitam tickets governamentais de alimentos para poder comer; 45 milhões não têm seguro médico e têm o sistema de saúde mais caro do mundo. A Dra. Marcia Angell, ex-diretora do The New England Journal of Medicine, da Universidade de Harvard, nos diz que os estadunidenses chegaram ao extremo de comprar remédios no Canadá: "Os remédios no Canadá custam a metade ou dois terços a menos do que nos Estados Unidos. Isso explica porque, em 2002, mais de um milhão de estadunidenses compravam remédios no Canadá”. 5 milhões de famílias tiveram suas casas embargadas pelos bancos e outros 13 milhões estão em processo para 2014. No país mais rico do mundo há 3 milhões de pessoas sem teto, vivem literalmente nas ruas e os albergues não dão conta devido ao número crescente de pessoas que perambulam. O desemprego é de 8,1%, segundo cifras do governo.
Chama a atenção que as cifras que geralmente são apresentadas à imprensa informam que o índice de emprego aumentou; porém, não dizem que são empregos temporários; mas as pessoas querem empregos permanentes devido ao alto custo de vida; não mencionam que muitos são trabalhos de baixos salários; nem mencionam que são empregos especializados; não mencionam os que ainda estão buscando trabalho ou simplesmente se cansaram de buscar e, por isso, não aparecem nas estatísticas. Quase todas as cifras antes mencionadas se duplicam quando se trata de latinos, afroamericanos e asiáticos. A realidade vivida nos EUA explica em parte que a drástica diminuição em anos recentes da imigração sem documentos através da fronteira México-EUA.
A essa realidade, soma-se o fato de que nos Estados Unidos, com uma população de 300 milhões, 400 famílias somente, do total combinado de riquezas e ingressos, acumularam a enorme cifra de U$ 1.57 trilhões de dólares. Possuem mais de 50% da riqueza de toda a população. Em 2000, os altos executivos das grandes corporações-multinacionais viram seus salários aumentar com uma diferença de U$ 90 sobre U$ 1 ganho em média por um trabalhador. Isso sem contar os bônus e outros benefícios dos superricos e milionários. Uma elite de 1% fica com os ingressos de 99% da população. Seria ingênuo crer que as riquezas que acumularam fora devido à sua educação, aos sacrifícios e ao trabalho.
O modelo neoliberal que ganhou forças com o ex-presidente Ronald Reagan e com a ex-primeira ministra inglesa Margareth Thatcher no início dos anos 80 explica aonde chegou o povo estadunidense e suas minorias atualmente. A ideologia do neoliberalismo postula que tudo tem que ser privatizado; a tecnologia está acima dos trabalhadores; os sindicatos (nos EUA são conhecidos como Uniões) são atacados; a desregulação dos mercados beneficia a todos; na prática as corporações-multinacionais e os bancos –não o governo- dirigem o país. Os ataques às ajudas sociais são alguns de seus principais postulados, com resultados nefastos. Essa radiografia mostra que os EUA converteram-se em uma nação subdesenvolvida, cheia de pobres e desigualdades.
Mesmo assim, ainda acreditamos que outro Estados Unidos é possível.

Venezuela cresce 5,6% no primeiro trimestre

http://www.valor.com.br/internacional/2664390/pib-da-venezuela-cresce-56-aa-no-primeiro-trimestre

Europa na encruzilhada


http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5599

Crise externa já faz planalto mirar 2013

http://www.valor.com.br/brasil/2663068/crise-externa-ja-faz-planalto-mirar-2013

"A eurozona está se auto-destruindo", diz presidente do Banco da Inglaterra


Carta Maior


O botão de alarme do pânico está soando para além da moeda única europeia. No parlamento britânico, o primeiro ministro David Cameron assinalou nesta quarta-feira que a eurozona “precisa decidir se segue adiante ou não e traçar uma estratégia coerente a respeito”. O presidente do Banco da Inglaterra, Mervyn King, uniu-se ao pessimismo dizendo que a eurozona “está se autodestruindo”. O artigo é de Marcelo Justo.
Data: 16/05/2012
Londres - Queda do euro, governo interino na Grécia, impasse franco-alemão, austeridade e recessão, aumento do déficit, desemprego, indignados: a lista de tormentas da eurozona é interminável. O botão de alarme do pânico está soando para além da moeda única europeia. No parlamento britânico, o primeiro ministro David Cameron assinalou nesta quarta-feira que a eurozona “precisa decidir se segue adiante ou não e traçar uma estratégia coerente a respeito”. O presidente do Banco da Inglaterra (Banco Central), Mervyn King, uniu-se ao pessimismo dizendo que a eurozona “está se autodestruindo”.

Cameron e King gritam desde as margens do cenário: junto à economia britânica sofrem as peripécias da tragédia, mas podem fazer pouco para influir no desenlace. Muito mais grave ainda para a obra é o diagnóstico diferente que fazem da crise a austera dama de ferro alemã Angela Merkel e o pró-crescimento presidente da França, François Hollande. Alemanha e França são o eixo da eurozona: suas diferenças pressagiam uma paralisia. No momento, a eurozona existe em um estado similar à definição que Alfred Hitchcock tinha sobre o suspense: “imagine uma bomba colocada debaixo de um banco a ponto de explodir; o espectador pode vê-la, o protagonista não”.

A bomba a ponto de explodir é a Grécia, que tem novas eleições no próximo dia 17 de junho e empossou nesta quarta um governo interino. Os analistas antecipam que uma vitória da coalizão de esquerda Syriza (trotskistas, maoístas, verdes, independentes), que rechaça a austeridade acordada com a Troika (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), em troca de 130 bilhões de euros para evitar uma moratória, significará a saída da Grécia da eurozona.

Em seu encontro na terça-feira, Merkel e Hollande disseram que queriam a Grécia na eurozona, mas a chanceler alemã deixou claro que os compromissos devem ser respeitados. O empréstimo da troika só será entregue se o próximo governo se comprometer a cortar outros 10 bilhões de euros em junho numa economia que já anda no quinto ano consecutivo de recessão. Os gregos começam a se preparar. Na segunda-feira, retiraram cerca de 600 milhões de euros dos bancos e calcula-se que uns 28 bilhões estão escondidos sob o colchão para caso de vir o estouro e o retorno do dracma com uma megadesvalorização incluída.

A preocupação britânica expressa por Cameron e King é compreensível, mas tem uma perna bamba ou, ao menos, curiosa. Em abril, a economia britânica entrou oficialmente em recessão: a eurozona conseguiu evitá-la por um fio de cabelo. Seguindo o escritório de estatísticas Eurostat, o crescimento foi nulo, mas esta “boa notícia” esconde uma história de duas eurozonas. A Alemanha com um crescimento de 0,5%, acompanhada pela Bélgica, Eslováquia e um reduzido número de países compensou a recessão da Itália, Espanha, Portugal, Holanda e Grécia (que experimentou uma queda de 6,2%). Para o futuro, os analistas advertiram que este desempenho alemão é insustentável com uma eurozona ferida.

Contágio econômico e político
O fantasma mais temido de um default grego é o contágio na direção dos famosos PIIGS: Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, sem o G da Grécia. Os cálculos variam, mas uma estimativa média coloca o custo da saída grega da eurozona ao redor de 400 bilhões de euros. A reestruturação da dívida grega e a desvalorização de sua moeda fariam a União Europeia e o FMI perder cerca de 240 bilhões, os bancos centrais uns 130 bilhões e os bancos privados uns 25 bilhões. Mais grave ainda seria a ameaça que pairaria sobre Espanha, Itália e Portugal e seus frágeis sistemas financeiros que poderiam provocar, segundo alguns analistas, uma crise similar a de 2008.

Neste contexto, a crise de legitimidade dos governos começa a parecer uma enfermidade crônica. Desde o estouro da dívida soberana em 2010, 16 países mudaram de governo, mais da metade dos 27 que compõem a UE. Estes novos governos têm uma legitimidade de curto alcance, como sabe em primeira mão o presidente da Espanha, Mariano Rajoy, que já perdeu uma considerável parte do apoio majoritário que recebeu nas eleições do final do ano passado.

Com um desemprego entre os jovens que supera os 50%, os indignados da Espanha parecem ter um futuro assegurado. Na Itália, o primeiro-ministro Mario Monti corre o perigo de perder o apoio inicial se a Itália seguir empacada em seu explosivo coquetel de recessão e ajuste. No dia 31 de maio, a Irlanda vota em um referendo sobre o acordo fiscal europeu firmado por 25 membros da UE no final de 2011 para garantir que ninguém tenha um déficit fiscal superior a 3% e uma dívida pública superior a 60% do PIB.

Em meio a esse panorama sombrio todavia há vozes que enxergam luzes no fim do túnel. Segundo um novo “paper” do ECFR (Conselho Europeu de Relações Exteriores), um “think thank” pan-europeu, a relação entre François Hollande e Angela Merkel será mais produtiva do que aquela que havia com Nicolas Sarkozy. “A experiência mostra que é mais fácil o acordo e a cooperação de dois partidos com ideias diferentes que devem firmar um compromisso do que no caso de uma dupla simbiótica como a Merkozy”, assinala Ulrike Guerrot, do ECFR.

Mesmo uma saída da Grécia do Euro tem seus simpatizantes, como o analista Simon Jenkins, que, no The Guardian, não dúvida de apresentar a Argentina como um exemplo das bondades de uma reestruturação da dívida. “Só quando a Grécia se livrar da dívida que tem, como fizeram Islândia e Argentina, poderá reconstruir sua economia com base em uma taxa de câmbio realista”, assinalou Jenkins.

Tradução: Katarina Peixoto

Carlos Fuentes: escrever para ser


Carta Maior

Muito mais que um grande escritor, a América perdeu um homem de seu tempo – de seus tempos. Que soube defender suas idéias com tamanha inteireza, com tamanha elegância, com tamanha firmeza, que mesmo os que tantas vezes discordaram dele poucas vezes deixaram de respeitá-lo. Fuentes acreditava no futuro. No futuro da América Latina, no futuro no ser humano. Acreditava que, em algum momento desse nosso eterno recomeçar, nós, da América Latina, deixaríamos de recomeçar e começaríamos de verdade. O artigo é de Eric Nepomuceno.
Data: 16/05/2012
Vejo algumas fotos em preto e branco. E me detenho em uma, feita em algum dia incerto da Barcelona daqueles anos 70, mostrando um Vargas Llosa alto e sorridente, um Carlos Fuentes um tanto formal, e um Gabriel García Márquez cabeludo e com bigodes que parecem desenhados a carvão. Fuentes ainda fumava: na mão esquerda, posta fraternalmente sobre o ombro de García Márquez, aparece o cigarro. Ali estão eles: Vargas Llosa aparece à esquerda, Fuentes está no centro, García Márquez à direita. Exatamente o avesso do que a vida reservaria aos três, ou do que os três fariam de suas vidas.

Na foto, os três são jovens, e parecem confiantes, e ocupam o inverso do espaço que o tempo e a realidade se encarregariam de colocar em seus devidos lugares: quem à direita, ao centro, à esquerda.

Volta e meia imagino como será ter sido ser jovem, ou melhor, ser um jovem Fuentes, um jovem Mario Vargas, um jovem García Márquez naqueles anos de turbilhão. Uma vez perguntei isso a Fuentes. Estávamos em São Paulo, caminhávamos ao léu com Silvia Lemus, sua mulher, para cima e para baixo por aquelas paralelas da rua Augusta, e ele me contava coisas. Dizia assim: ‘É que a gente era muito jovem, e acreditávamos nas mesmas coisas, e tínhamos uma confiança enorme no futuro’. Insistia: sua amizade com García Márquez, que vinha de 1961, era a qualquer prova. E acabei sendo testemunha disso, dessa verdade.

E lembro que algum tempo depois, coisa de ano ou ano e meio, ao entrar num restaurante italiano em Buenos Aires, topei com ele e com Silvia. E ele, como sempre de uma elegância sem fim – e, atenção: estou me referindo à elegância como postura diante da vida –, quis continuar uma conversa que eu nem lembrava qual era.

Era a conversa sobre nossos respectivos anos jovens. Disse ele, lembrando de Vargas Llosa, de García Márquez, de Cortázar: ‘A vida segue, e às vezes, nos separa. Bom mesmo é quando você consegue discordar de tudo e fazer com que nada separe os afetos, a amizade’. Tentou isso a vida inteira. Às vezes – com Cortázar, com García Márquez –, conseguiu. Aliás, sem maiores esforços.

Quando me refiro a ele como um homem elegante, me refiro a um pensamento que conseguia ser ao mesmo tempo ágil e contido, que não se limitava às barreiras que muitas vezes nos impomos a nós mesmos. Acreditava no que acreditava.

Acreditava no futuro. No futuro da América Latina, no futuro no ser humano. Acreditava que, em algum momento desse nosso eterno recomeçar, nós, da América Latina, deixaríamos de recomeçar e começaríamos de verdade. E escrevia assim: acreditando. Não há dois livros dele que sejam iguais. Porque, em seu ofício, Carlos Fuentes era como na vida: sempre disposto a recomeçar, a reinventar. Sua obra é desigual, porque ao longo da vida somos desiguais. Escrevia cada livro como se fosse o primeiro. E por isso mesmo ele foi tantos, como tantos somos nós em nosso dia-a-dia.

A única coisa que se manteve sempre em cada palavra, cada frase que desenhou, foi a fé no futuro. Jamais acreditou em limites e fronteiras, quando escrevia. E nem quando vivia.

Qualquer um que tenha a palavra escrita como matéria prima, e a memória como guia dos tempos, saberá descobrir no autor de ‘A região mais transparente’, ou ‘A morte de Artemio Cruz’, ou de ‘Terra Nostra’, de ‘Gringo Viejo’, um eterno contemporâneo, um companheiro de viagem, um parceiro de sonhos e ousadias. E uma testemunha de desesperanças e esperanças, de tudo aquilo que poderíamos ter sido e que não fomos.

Fuentes dizia que, mais do que pela obra dos grandes historiadores, dos grandes sociólogos, dos grandes antropólogos – e ele foi amigo de vários dos grandes –, a verdadeira história nossa era escrita por escritores.

Lembro bem da vez em que ele disse que escrever literatura não era um ato natural: era como dizer que a realidade, não é suficiente. Que precisa de outra realidade, a da imaginação. E que isso era perigoso. Assim viveu, assim escreveu.

Muito mais que um grande escritor, a América perdeu um homem de seu tempo – de seus tempos. Que soube defender suas idéias com tamanha inteireza, com tamanha elegância, com tamanha firmeza, que mesmo os que tantas vezes discordaram dele poucas vezes deixaram de respeitá-lo.

Eu perdi um amigo distante. Que teve uma vida coalhada de dramas tenebrosos – a ele e a Silvia foi reservada a pior das dores de um ser humano, a de enterrar seus filhos – e conseguiu continuar caminhando. E sorrindo.

Lembro de Carlos Fuentes como alguém que não se deixou abater. Que não deixou de sorrir e de acreditar.

Certa vez, ele me disse que escrevia para continuar sendo. E, assim, foi. 

"A força pode esconder a verdade, mas o tempo traz a luz"


Site Carta Maior

Com aplausos e entoando estrofes do hino nacional, políticos, militantes dos direitos humanos, vítimas da ditadura e familiares dos mortos e desaparecidos do regime saudaram a instalação da Comissão Verdade, em cerimônia realizada no Palácio do Planalto. Foram poucos os que conseguiram não se emocionar. A própria presidenta Dilma Rousseff, durante seu discurso, embargou a voz e chorou. “A força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo pode adiá-la, mas o tempo acaba por trazer a luz. Hoje, esse tempo chegou”, afirmou.
Data: 16/05/2012
Brasília - Com aplausos calorosos e entoando estrofes do hino nacional, políticos, militantes dos direitos humanos, vítimas da ditadura e familiares dos mortos e desaparecidos do regime saudaram a instalação da Comissão Verdade, em cerimônia realizada nesta quarta (16), no Palácio do Planalto. Foram poucos os que conseguiram não se emocionar. A própria presidenta Dilma Rousseff, durante seu discurso, embargou a voz e chorou ao falar sobre a importância histórica do momento. “A força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, o medo pode adiá-la, mas o tempo acaba por trazer a luz. Hoje, esse tempo chegou”, afirmou.

Dilma chegou à cerimônia acompanhada de todos os ex-presidentes civis que a antecederam, à exceção de Tancredo Neves e Itamar Franco, já falecidos. Fez questão de pontuar a contribuição de cada um deles à democracia brasileira, dividindo a responsabilidade pela criação do ambiente democrático que resultou na instalação da Comissão da Verdade com Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Collor de Mello e José Sarney. Mas não escondeu o orgulho de ter sido ela, uma ex-presa política torturada nos porões da ditadura militar, a responsável pela instituição da Comissão, tão reivindicada e ansiosamente esperada pela sociedade brasileira.

“Cada um de nós deu a sua contribuição para esse marco civilizatório, a Comissão da Verdade. Esse é o ponto culminante de um processo iniciado nas lutas do povo brasileiro, pelas liberdades democráticas, pela anistia, pelas eleições diretas, pela Constituinte, pela estabilidade econômica, pelo crescimento com inclusão social. Um processo construído passo a passo, durante cada um dos governos eleitos, depois da ditadura”, justificou.

Perfil polêmico
Os sete membros empossados pela presidenta comemoraram o momento histórico e se declararam prontos e capacitados a contribuírem com o processo de reconciliação nacional, “sem revanchismos e sem apedrejamentos”, como deixou claro o porta-voz do grupo no evento, o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias. “A história vale pelo que ela conta e pelo que dela se espera”, afirmou, ressaltando a importância da busca pela verdade e memória sobre o período.

Dias também tentou arrefecer os ânimos de vítimas da ditadura e familiares que, desde o dia anterior, mobilizaram-se em desagravo à Comissão, devido às declarações de alguns membros, como o jurista pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, de que a comissão investigará não só os agentes de Estado responsáveis por crimes como tortura, morte, desaparecimento e ocultação de cadáveres, mas também os militantes de esquerda. Segundo Dias, “possíveis abusos cometidos na luta não justificam os atos de agentes e mandatários do Estado”.

O próprio Cavalcanti Filho adotou um tom mais ameno e, em entrevista à imprensa após a cerimônia, disse que, antes de decidir se irá ou não investigar militantes, a Comissão precisa definir seu plano de trabalho, ancorando-o sobre os consensos do grupo. “Ainda temos que conversar sobre isso. Eu recebi, pela internet e de várias fontes, a solicitação para investigar uma lista com 119 militantes. Mas vamos aguardar a decisão da comissão”, justificou.

Outro dos empossados, o ex-procurador geral da República, Cláudio Fonteles, defendeu a não apuração dos crimes praticados por militantes políticos. Segundo ele, nenhuma das comissões da verdade criada nos outros 40 países que já passaram pela experiência, tiveram este perfil.

A presidenta Dilma, no seu discurso, já havia delimitado a função conciliatória do colegiado, cujos membros foram escolhidos diretamente por ela. “Quando cumpri minha atribuição de nomear a Comissão da Verdade, convidei mulheres e homens com uma biografia de identificação com a democracia e aversão aos abusos do Estado. Convidei, sobretudo, mulheres e homens inteligentes, maduros e com capacidade de liderar o esforço da sociedade brasileira em busca da verdade histórica, da pacificação e da conciliação nacionais. O país reconhecerá nesse grupo, não tenho dúvidas, brasileiros que se notabilizaram pelo espírito democrático e pela rejeição a confrontos inúteis ou gestos de revanchismo”, pontuou.

Dilma também não se furtou a mandar um recado aos remanescentes das casernas e àqueles que entendem a instalação da comissão como uma ameaça. “A ignorância sobre a história não pacifica, pelo contrário, mantêm latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda apaziguar, apenas facilita o trânsito da intolerância. A sombra e a mentira não são capazes de promover a concórdia. O Brasil merece a verdade. As novas gerações merecem a verdade, e, sobretudo, merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia. É como se disséssemos que, se existem filhos sem pais, se existem pais sem túmulo, se existem túmulos sem corpos, nunca, nunca mesmo, pode existir uma história sem voz. E quem dá voz à história são os homens e as mulheres livres que não têm medo de escrevê-la”, disse, muito emocionada, a presidenta.

Ausências e desagravos
A ciência do valor histórico de ver o país instaurar sua Comissão da Verdade, entretanto, não foi suficiente para acalentar os ânimos de ex-perseguidos políticos e familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura militar. Muitos deles, descontentes com o perfil de parte dos membros escolhidos pela presidenta, nem apareceram à cerimônia. Caso da militante histórica pelos direitos das vítimas e seus familiares, a ex-exilada Iara Xavier Pereira, que perdeu o marido e dois irmãos durante o regime.

Outros registraram presença, mas apenas com o propósito de pressionar a Comissão a adotar uma postura suficientemente progressista para abrir espaço para que os agentes do estado responsáveis por crimes de tortura, assassinato, estupro, desaparecimento forçado e ocultação de cadáveres possam vir a ser punidos.

A anistiada política Rosa dos Santos, filha do militante comunista e ferroviário Artur Pereira dos Silva, morto durante a Ditadura, disse reconhecer o esforço do governo em tentar curar as feridas abertas, mas se disse muito receosa com o perfil da comissão. “Pessoas que pensam que militantes têm que ser investigados não deveriam estar aí. Tanto os militantes quanto seus familiares já sofreram a vida toda, toda a sorte de violências, privações e perseguições. Uma afirmação dessas é demonstração de desconhecimento da história e do contesto político em que vivemos”, criticou.

Ela defendeu que as vítimas e familiares adotem uma postura proativa de acompanhar de perto o trabalho da Comissão, pressionando sempre. “Eu quero participar das reuniões para ter acesso ao que está sendo discutido, nem que para isso eu precise providenciar um mandato de segurança”, afirmou.